05 maio, 2010

Doce Alice,Chata Alice

Domingo finalmente fui assistir a Alice, de Tim Burton. Não gostei. O filme cortou totalmente a essência da personagem e transformou a história em uma espécie de "Crônicas de Nárnia" mais bizarrinha e interessante. E olha que essa história já passou pelas mãos do Walt Disney, e nem ele a distorceu tanto. Mas eu confio no olhar do Tim Burton, dá para entender que a proposta do filme não era ser cult, era vender ingresso de cinema e ponto final. Tanto que, já no começo do filme, ele deixa bem claro que não vai contar a história original. O filme narra a trajetória de Alice já com 19 anos, e não os 9 do livro. Lá ela está em uma festa da nobreza da Inglaterra, até que descobre que está prestes a ser pedida em casamento. Desesperada, ela foge seguindo o coelho, e vai parar no País das Maravilhas, que ela visitou quando era pequena mas não se lembrava mais. Pela história vão se desenrolando uma série de rodeios estranhos, como por exemplo a história do sumiço das tortas da Rainha de Copas, que tinha no livro, e volta agora. E do Chapeleiro, que foi (pra mim) o personagem que mais sofreu com a adaptação. Ele passou de um cara inteligente por ser louco, a um louco por ser burro. De qualquer forma, o filme já arrecadou mais de R$ 232,6 milhões em sua estreia.
Mas cabe aqui fazer umas pequenas lembranças do que é a verdadeira Alice para que quem assista o filme em cartaz atualmente não comece a achar que o escritor Lewis Carroll era tão limitado quando o roteirista. O livro começa assim:

Se esse mundo fosse só meu, tudo nele seria diferente. Nada era o que é porque tudo era o que não é. Tudo o que é, por sua vez, não seria; e o que não fosse, seria. 
(fala de Alice)

Através dos parágrafos e mais parágrafos do livro, uma série de teorias e propostas filosóficas do autor são colocadas à prova pelas situações do personagem principal. As vezes ele tenta provar que as teorias são furadas. As vezes tenta provar que funcionam. Um exemplo é o conceito de "reflexo do Winnicott", que diz que a personalidade de alguém se forma baseada em um reflexo da criação materna ou paterna. Inclusive um pouco disso "respingou" no filme de Tim Burton, quando várias vezes Alice agiu pensando no que seu pai e sua mãe faziam para ela quando estavam por perto, seja bem ou mal. 
Outro fato é que a história é cheia de simbolismos. O que não é de se surpreender, afinal Lewis Carroll era professor de matemática. No capítulo 7 do livro," O Chá dos Loucos", a Lebre, o Chapeleiro e o Arganaz dão vários exemplos em que o valor do sentido de uma determinada frase não é o mesmo que o valor do contrário da frase. Por exemplo, o Chapeleiro diz uma vez que "Vejo o que como" não é o mesmo que "Como o que vejo". No ramo da matemárica, esse conceito é do da lógica inversa, ou seja, uma determinada operação não dá o mesmo resultado se inverter as posições. No filme, ele também dá exemplos dessa lógica, mas ficaram muito vagos. Não sei porque Tim Burton, que gosta tanto de bizarrices, não quis explorar esse lado do livro.
Mas ao meu ver a grande sacada de Alice é saber quem é ela mesma. Constantemente ela se questiona coisas como "Devo entrar numa festa sem ser convidada?" (quando entrou na toca do coelho), e ela vai se deparando com situações criadas pela própria mente dela (no que parece ser um sonho) para testa-la e para que ela própria se conheça. Vem aí aquele conceito do sonho inconsciente de Freud. Ela passa o filme seguindo impulsos, impulsos, e se deixa levar pela história. A Rainha de Copas poderia ser um outro ego da personagem, com tendências narcisistas. E o Chapeleiro representaria os questionamentos de Alice quanto à vida, o universo e tudo mais.
A história original, no fim, mostra Alice acordando do sonho e tendo as respostas para as perguntas existencialistas que tinha. O filme também mostra isso: no fim ela decidiu o que queria da vida após conhecer a si mesma. E os dois deixam a pergunta: será que nós mesmo nos conhecemos, independentemente da situação em que nos encontramos?


Observações:
- Eu particularmente ADORO a Alice no País das Maravílhas.
- Já li o livro.
- A melhor adaptação é a do filme de 1999, com a Whoopi Goldberg como o Gato.

Um comentário:

Maryana disse...

Eu compartilho a tua visão. O filme é bem comercial e foge dos princípios do livro.
Tim Burton geralmente acerta na temática dos filmes e nas suas adaptações, mas nessa ele deixou muito a desejar.